Notícias — 25 abril 2013

Manaus - Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o planeta Terra é constituído 70% por água, mas, apesar de parecer muito, apenas 2% desse recurso está disponível para consumo humano, cerca de 11% da população mundial ainda não possui acesso à água potável e mais de 15% continua vivendo sem redes de esgoto.

Esses dados fazem parte de um relatório apresentado à Unesco chamado ‘Gestão dos Recursos Hídricos em Condições de Incerteza e Risco’, que aponta uma triste realidade sobre o déficit de recursos hídricos até 2070, quando o problema deverá ser sentido por cerca de 44 milhões de pessoas, principalmente na Europa.

A água é um recurso essencial para a subsistência humana, processos industriais, agropecuária, tudo depende desse recurso natural. Mas a poluição e o mau uso fazem da questão da água um dos maiores problemas ambientais da atualidade, necessitando de atenção e soluções imediatas.

No Brasil, de acordo com os Indicadores de Desenvolvimento Sustentável (IDS 2012), disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) durante a Rio +20, o acesso à água tem crescido continuamente e o percentual da população com abastecimento adequado chegou a 93,1% na zona urbana em 2009, mas na Região Norte esse índice ainda é de 68,7%.

Apesar da Região Norte abrigar a maior bacia hidrográfica do planeta o acesso à água potável ainda é um problema em algumas localidades e o uso sustentável do recurso é uma realidade distante. Isso foi confirmado por meio de uma pesquisa realizada pelo doutor em Geociências e Meio Ambiente e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas do Amazonas (Inpa), Márcio Luiz da Silva.
Ele constatou que todos os 62 municípios do Estado do Amazonas consomem água subterrânea, apesar da maioria das cidades estar localizada às margens dos grandes rios amazônicos.

Segundo Silva, os estudos sobre águas subterrâneas no Amazonas são escassos e, quando existem, normalmente se restringem a Manaus.  “Nós resolvemos fazer este trabalho na calha do Rio Negro, porque é uma região ainda carente (englobando municípios como São Gabriel da Cachoeira, Santa Izabel do Rio Negro, Barcelos e Novo Airão) no abastecimento de água de qualidade e em informação quanto à composição química dessa água. Conseguimos dar o primeiro passo para conhecer a situação a fim de que se possa fazer um planejamento sobre as políticas de abastecimento no futuro e a divulgação dos dados adquiridos por meio da pesquisa”, destacou.

CONSUMO DE ÁGUA SUBTERRÂNEA

O consumo de água subterrânea é algo comum na Região Norte porque ela está sobre um aquífero livre em que é fácil encontrar água há poucos metros de profundidade, o que facilita o acesso de baixo custo ao bem, além do que, teoricamente, a qualidade é melhor do que a água dos grandes rios na superfície.
Porém, a pesquisa intitulada ‘Qualidade da água de subsuperfície utilizada para consumo humano em cidades na calha do Rio Negro – AM’ detectou que a maioria das cidades e comunidades pesquisadas consome água subterrânea contaminada pelo mau uso do recurso.

“Constatamos isso, por exemplo, em 17 comunidades da Ilha do Pesqueiro, localizada às margens do Rio Amazonas, no município de Manacapuru. Lá, todas as comunidades apresentaram a presença de coliformes fecais em amostras de água consumida pela população”, frisou.

Silva destacou que para evoluir esse quadro são necessários investimentos e, principalmente, conscientização por parte dos administradores sobre a importância da qualidade da água, normas de perfuração de poços e instalação sanitária em alguns municípios.

“É angustiante percebermos que a população que habita a região do planeta com a maior disponibilidade de água potável do mundo não tem acesso a ela”, afirmou.

NÃO AO DESPERDÍCIO

Assim como a pesquisa sobre a qualidade da água no interior do Amazonas foi realizada com o apoio da Fapeam, dezenas de outros estudos com o intuito de compreender e sensibilizar a população  sobre a preservação desse bem natural são realizados em outros níveis de ensino no Estado. O Programa Ciência na Escola (PCE), voltado ao ensino básico e financiado pela Fundação de Amparo, tem algumas pesquisas nessa área.

Com a ideia de realizar, com o apoio da Fapeam, um projeto de atividade extraclasse referente ao Dia Mundial da Água, alunos da Escola Rainha dos Apóstolos, localizada no quilômetro 23 da Rodovia BR-174, juntamente com a professora Waldenice da Silva Barreto desenvolveram o projeto ‘Desperdício de água: quem é responsável?’,  que mobilizou estudantes, professores e a comunidade para conhecer a importância de se preservar a água.
O projeto investigou  os níveis de desperdício de água, litro por dia e litro por ano, nas dependências da escola, bem como identificou os principais fatores que contribuem para o desperdício desse recurso a fim de sugerir meios para minimizar esses danos.
“O resultado da pesquisa foi bastante significativo e toda a vivência do projeto se transformou em textos, tabelas e gráficos acompanhados de uma análise crítica das informações obtidas no questionário ambiental aplicado na comunidade escolar”, explicou a professora Waldenize Barreto.

A pesquisa analisou pontos que apresentavam vazamento de água na escola como torneiras, chuveiros e canos quebrados. Ao todo, foram detectados 33 vazamentos em diversas intensidades e que após a coleta de dados apresentaram um desperdício total que variava de 1 a 280 litros por dia.

Na avaliação da professora, o tema abordado pelo projeto foi importante não apenas como experiência científica para os alunos, mas, principalmente pela consciência coletiva sobre a importância desse recurso natural nos tempos atuais.

“O projeto contribuiu para despertar o senso crítico da comunidade escolar e para trazer uma nova visão sobre a responsabilidade de cada um, mobilizando para o pleno exercício da Educação Ambiental e Cidadania, que é capaz de iniciar a mudança no próprio espaço de atuação e vivência comunitária”, destacou. Uma das sugestões originadas a partir do projeto foi a construção de uma Agenda 21 Escolar, capaz de iniciar a mudança no espaço de atuação e vivência comunitária no sentido da construção de uma sociedade sustentável.

A Agenda 21 é um documento gerado a partir da Rio Eco-92 para implantação global, prevendo, em mais de 40 tópicos, as possibilidades de desenvolvimento sustentável para o planeta, onde se possa gerar desenvolvimento sem prejuízos à qualidade de vida do ser humano e às condições ambientais.
O documento visa, da mesma forma que as demais agendas, a sustentabilidade social e econômica, atendendo às necessidades humanas para uma vida digna e a proteção do meio ambiente, tanto o ambiente utilizado pelos cidadãos, como formados pelos ecossistemas da região.

UNESCO

De encontro a essas pesquisas, a Unesco declarou o ano de 2013 como o ‘Ano Internacional das Nações Unidas para a Cooperação pela Água’.

O objetivo é promover eventos e discussões que ajudem a buscar soluções para combater problemas graves tais como a ausência de acesso à água potável para 11% da população mundial e a morte de cerca de 4 mil crianças, por dia, por conta de doenças diarreicas causadas pela falta de acesso à água de qualidade.

A cooperação pela água tem múltiplas dimensões, incluindo os aspectos culturais, educacionais, científicos, religiosos, éticos, sociais, políticos, jurídicos, institucionais e econômicos.

Unesco acredita que para ser bem-sucedida e duradoura, a cooperação pela água precisa de um entendimento comum do que sejam as necessidades e os desafios em torno desse bem e, por isso, pretende construir um consenso sobre as respostas adequadas a essas questões, que serão o foco principal do Ano Internacional e do Dia Mundial da Água em 2013.

Segundo a diretora da Divisão de Ciências da Água da Unesco e secretária do Programa Hidrológico Internacional, Blanca Jiménez Cisneros, que lançou a campanha brasileira para o Dia Internacional das Nações Unidas da Cooperação pela Água 2013 a iniciativa é muito importante.

“A água é vital para a vida e o desenvolvimento, mas as fontes de água no planeta são limitadas. Em todos os cenários, lidar com água demanda colaboração: é apenas por meio da cooperação que poderemos, no futuro, obter sucesso ao gerenciar nossas fontes finitas e frágeis de água, que estão sob crescente pressão exercida pelas atividades de uma população mundial em crescimento que já ultrapassa 7 bilhões de pessoas”, destacou, em entrevista ao portal da Unesco no Brasil.
Cisneros acredita que a pressão sobre os recursos hídricos está aumentando com seu uso pela agricultura e pela indústria, com a poluição e a urbanização e com as mudanças ambientais e climáticas.

“A cooperação pela água assume muitas formas, desde a cooperação através de fronteiras para o manejo de aquíferos subterrâneos e bacias fluviais compartilhados, ao intercâmbio de dados científicos, à cooperação em uma vila rural para a construção de um poço ou para o fornecimento de água potável por meio de redes urbanas. Uma coisa é certa: a humanidade não pode prosperar sem a cooperação no manejo da água”, pontuou.

Sobre a iniciativa, o pesquisador Marcio Silva lembra que “todos os anos vemos eventos, encontros, comemorações sobre o tema e pouco de concreto acontece. Nossa expectativa é que algo de concreto aconteça e que não fiquemos só passando informações técnicas, fazendo estudos, disponibilizando dados sem que nada seja feito espero que as pesquisas e os dados sejam levados em consideração durante as discussões programadas para 2013”, finalizou.

Fonte: Agência Fapeam

 

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